Posta de bacalhau, mas sem erros #2

As reacções ao lançamento do projecto BikeLau são mais um episódio de exposição-mediática-falta-de-informação que se tem registado nos últimos anos.

Os determinantes são muitos simples:

– lança-se um projecto com pouca informação disponível

– esse projecto provoca mixed-feelings, e há azias por curar

– a malta procura de tudo para cair em cima

– a malta cai efectivamente em cima, e com estrondo

Este tipo de fenómeno é potenciado ao extremo pelas redes sociais, sobretudo o Facebook em Portugal. As reacções das entidades envolvidas costumam ser duas:

– acalmar os ânimos e publicar o máximo informação possível, e esclarecer todas as dúvidas

– fazer de vítima, lançar mais buzz, não responder a nada e esfumar-se

Obviamente a primeira costuma ser a que tem melhores resultados, mas compreendo porque por vezes alguns promotores reagem da segunda forma. Não é fácil dar a cara um projecto que dá imenso trabalho, e muitas vezes sem se compreender bem o porquê, o público está a fazer de tudo para o destruir. A reacção natural é explodir. Foi o que aconteceu um pouco neste caso, e eu tentei de alguma forma explicar no post anterior.

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Sou totalmente a favor da iniciativa privada. O envolvimento da sociedade civil na promoção da bicicleta não está suficientemente explorada em Portugal, e todos os projectos e buzzwords que correm no país para a promoção da bicicleta não são suficientes. E temos bons exemplos em Portugal, como a Mubi, a FPCUB, e alguns bloggers como o Bicla no Porto, por exemplo.

Na vertente comercial, o panorama é mais centrado na loja de bicicletas, reparações e produtos relacionados. Não existem no país muitas PME’s suportadas na utilização da bicicleta, e as que existem estão concentradas nas duas grandes cidades. Amiúde existem algumas pequenas empresas de aluguer de bicicleta.

Daquilo que consegui compreender o projecto BikeLau é um projecto neste registo, de iniciativa privada. Correndo alguns riscos estratégicos, parece-me uma excelente iniciativa de um conjunto de investidores privados, que pretendem implementar uma rede de bicicletas viradas para o turismo na orla costeira, e não têm receio em afirmar com convicção que o mercado internacional é um objectivo.

O único problema do projecto foi mesmo a má informação. A massa crítica da bicicleta está farta do abuso do chavão bike-share, sobretudo por parte de representantes municipais. Acontece que neste caso, o chavão foi utilizado pelo representante maior da cidade mais próxima de Aveiro, que foi quem mais mal tratou o conceito de Bike-Sharing nos últimos vinte anos. Lançou-se um número absurdo para o ar (€195K), houve promoção institucional e a celeuma estoirou porque toda a gente pensou que era mais um projecto de bike-sharing mal desenhado. O que não é de todo o caso.

Para todos os efeitos os ânimos acalmaram e já foi perceptível que a interpretação inicial não foi a correcta. Espero sinceramente o melhor para este projecto, e se tudo correr bem, para o ano quero tirar uma foto em cima de uma Angel. Era efectivamente fantástico se cada praia tivesse um sistema de bicicletas tipo cruiser para a malta utilizar.

A minha sugestão: coloquem à disposição algumas bicicletas com o suporte para a prancha de surf ou de skate. Algo tipo isto:

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Que depois também dá para fazer isto:

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Posta de bacalhau, mas sem erros #1

Actualização

Ironia das ironias, cometi um erro nesta publicação e no seguimento lógico da mesma. Ao que parece este projecto não teve investimento público, mas a julgar pelo post que em baixo apresento, teve uma espécie de aval municipal, e apoio na sua promoção.

Isto só reforça a principal conclusão: é preciso saber comunicar. E havendo ou não investimento público, a partir do momento que existe uma promoção municipal, é preciso ter em conta o esclarecimento de todo o tipo de informação.

De forma a manter a verdade da exposição, deixo em baixo a publicação original.

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Fazer política neste Século é totalmente diferente de fazer política no Século passado.

Refiro-me ao lançamento da BIkelau, o novo sistema de bike sharing do Município de Ílhavo que estará disponível no próximo ano. A divulgação de alguns dados técnicos do investimento neste sistema, causaram algum desconforto nas redes sociais. O que está na base deste tipo de reacção é a simples falta de informação.

É um primeiro sinal de grande incompreensão do momento em que vivemos, anunciar um sistema de bike-sharing ao lado da cidade de Aveiro, sem pelo menos criar um site com o máximo possível de informação sobre o programa. Obviamente todas as decisões cruciais que foram tomadas, como o modelo, o desenho ou o conceito, vão causar todo o tipo de celeuma e reacção, porque as pessoas têm de basear a sua opinião na única coisa que foi disponibilizada: uns artigos de imprensa sobre uma apresentação onde estiveram presentes meia dúzia de pessoas.

É preciso saber as regras básicas de lançamento de produtos. Muito mais urgente quando está em causa a aquisição (investimento público) a uma empresa privada de bens e/ou serviços nos dias que correm, e apontar como único dado técnico, o investimento total.

Screenshot from 2014-10-21 21:45:11

Este comentário no principal ponto de contacto da massa crítica, também não ajuda nada à festa.

Vou deixar assim que possível mais considerações.

Love

Promoção da Confiança entre Ciclista e Condutor: Marca

A principal causa para a não utilização da bicicleta enquanto meio de transporte é o medo. O que na minha opinião é um obstáculo totalmente válido. Quem se desloca pelas estradas frequentemente apercebe-se que o convívio entre as bicicletas e outros meios de transporte é por vezes hostil, e potencialmente perigoso.

Urban AdvenTours - City View Tour - 8.2.08 - 10am

Não é de estranhar por exemplo que muito encarregados de família não permitam que os seus filhos se desloquem para a escola de bicicleta, ou que muitos adultos ainda tenham também receio do mesmo. A parte que sofre num incidente é sempre o ciclista, e facilmente se criam mazelas complicadas.

Felizmente o paradigma está lentamente a mudar, e a exemplo disso temos a recente alteração do código da estrada. Não há parte que não esteja interessada num convívio saudável entre todos os presentes na estrada (a não ser aquele indivíduo do ACP), e creio que chegou o momento de dar o passo seguinte.

Seria interessante que importantes instituições e empresas ligadas ao ramo dos transportes motorizados, como empresas de camionagem, taxis ou estafetas, providenciassem horas de formação e treino para lidar com bicicletas. Seria mais interessante se por exemplo a Mubi ou a FPCUB tivesse em carteira uma Formação Acreditada para esse efeito, onde empresas que ministrassem essa formação aos seus funcionários, receberia um Rótulo de Respeito.

Uma visita rápida ao sítio das duas instituições (aqui e aqui) e não encontrei este tipo de serviço, o que não quer dizer que estas ou outras já não o façam.

O importante neste tipo de iniciativas seria para além da formação e sensibilização de condutores de profissão, a responsabilização destes na estrada. Um simples autocolante com a marca da iniciativa na traseira do carro traria uma responsabilização brutal para o condutor. Para além disso, teria um impacto positivo brutal na comunicação social, e por si só o retorno mediático para as instituições que investissem nesta iniciativa compensaria largamente o encargo financeiro de suportar as formações.

A este propósito o The Times publicou hoje um artigo nesse sentido.

“Six people are killed and 157 seriously injured every week while walking or cycling, of whom 24 per cent are hit by a company vehicle. About 8 per cent of cars are company registered and about 15 per cent of all vehicles. HGVs account for 5 per cent of traffic but are involved in about a quarter of fatal collisions with cyclists.
The survey of 228 companies found that 54 per cent did not provide extra training on protecting pedestrians and cyclists, while 89 per cent did not plan their routes to avoid schools and residential areas.”

Enough said

Notas redundantes LIII

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O código da estrada existe para regular e limitar a liberdade da circulação motora nas estradas públicas, porque esta é potencialmente perigosa.

Se não existissem carros, o conjunto de normas a aplicar a peões, seria quase todo suportado no bom senso, porque caminhar não é potencialmente lesivo, nem limitador de liberdade terceira. O mesmo acontece com a bicicleta, porque esta não é potencialmente lesiva para ninguém, a não ser o próprio utilizador. Foi a partir deste conjunto de premissas que hoje me vi confrontando com um dilema moral digno de surgir num teste de filosofia do ensino secundário.

Saí de casa, e estava a cair uma tromba de água fortíssima, o que é chato mas não me transtorna. Acontece que tenho por hábito parar nos semáforos, e esperar até receber a indicação verde. Mas hoje a minha postura foi confrontada com o insólito de estar parado quase um minuto, em cima da bicicleta, com o computador às costas, e a água a fustigar-me violentamente.

Obviamente permaneci estóico até permissão electrónica. Mas fodasse. Porque raio é que eu tenho que estar sujeito a regras absurdas de uma população (condutores) que a mim não me diz respeito, e me condicionam e expõem a condições que me lesam?

É que sim. A liberdade de alguém conduzir, provoca dano no ciclista e no peão, como por exemplo a poluição sonora ou do ar. Neste caso ainda tinha a agravante de estar parado e exposto às condições porque existe um poste que manda parar os carros e o ciclista deve respeitar.

Obviamente isto são considerações de cabeceira, e produto de rebeldezinho. Mas importam ser colocadas, quanto mais não seja para o próprio conseguir colocar em perspectiva o absurdo a que é sujeito a todo o momento.