Sentido proibido no Bairro do Alboi, Aveiro

O Bairro do Alboi em Aveiro é um dos principais corredores pendulares de Aveiro. Uma parte expressiva da população que se desloque para a Universidade do bairro da Vera Cruz ou Estação, pelo menos, muito possivelmente vai passar pelo Bairro do Alboi.

Mais engraçado é o próprio Google Maps o sugerir.

A alternativa seria penosa para quem se desloca a pé ou de bicicleta, e implicava subir a Rua Direita ou a Rua de Batalhão de Caçadores (aka rua do Fórum à Sé), e descer pela Avenida de Santa Joana. Isso pura e simplesmente não acontece.

Alboi

Este pequeno troço acima em pleno Bairro do Alboi foi refeito, e bem na minha opinião, há pouco tempo. Cerca de um ano, creio. O problema é que esta via é de sentido único para trânsito automóvel, o que faz com que quem utilize este pequeno troço de bicicleta, faça uns minutos em contra-mão.

Ora, não há ninguém que se coíba de ali passar por causa da contra-ordenação. Eu faço-o diariamente, mais que uma vez, e dezenas de ciclistas também o fazem. Estamos perante um exemplo clássico de um projecto mal desenhado. Segundo alguns entendidos, se o peão ou ciclista viola a norma, é porque esta está mal feita (tradução ranhosa).

Conclusão: não se trata aqui de alterar um espaço profundamente para que um corredor pendular pedestre e ciclista seja criado. Ele já existe e é muito pertinente porque o trânsito automóvel ali é reduzido e controlado. Trata-se isso sim de facilitar a permitir o tráfego que é natural naquele espaço.

Ou então estamos perante uma situação absurda onde crianças com menos de cinco anos são promovidas a criminosas, tipo diariamente.

Tipo.

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As melhores infraestruturas de cidades

O The Guardian publicou um artigo que tem vindo a ser largamente partilhado no mundo, com as melhores infraestruturas nas cidades para bicicleta em todo o mundo.

infra
Clique na imagem para consultar o artigo original.

O artigo é o resultado de um call que o jornal fez aos leitores para estes enviarem as suas ciclovias preferidas. O resultado acredito, deve ter sido extenso e um jornal fez uma opção editorial.

Apesar de as ciclovias apresentadas serem verdadeiramente impressionantes, há uma coisa que faz comichão. Não há praticamente bicicletas na maioria das fotografias.

Parece que a postura de alguns media e líderes de opinião que frequentemente denunciamos, é também promovida pelos próprios ciclistas. Num momento em que a difusão da imagem é tão agressiva, e o cuidado com a mensagem tão importante (veja-se o artigo da MUBI), os próprios visados fazem questão de difundir a mensagem de forma errada.

Também se pode dar o caso de as ciclovias fotografadas não serem utilizadas, mas não é de todo o caso, como por exemplo o cruzamento de Vancouver.

Btw. um livro que parece interessante sobre o tema em questão: Velo City de Galvin Blyth.

Posta de bacalhau, mas sem erros #2

As reacções ao lançamento do projecto BikeLau são mais um episódio de exposição-mediática-falta-de-informação que se tem registado nos últimos anos.

Os determinantes são muitos simples:

– lança-se um projecto com pouca informação disponível

– esse projecto provoca mixed-feelings, e há azias por curar

– a malta procura de tudo para cair em cima

– a malta cai efectivamente em cima, e com estrondo

Este tipo de fenómeno é potenciado ao extremo pelas redes sociais, sobretudo o Facebook em Portugal. As reacções das entidades envolvidas costumam ser duas:

– acalmar os ânimos e publicar o máximo informação possível, e esclarecer todas as dúvidas

– fazer de vítima, lançar mais buzz, não responder a nada e esfumar-se

Obviamente a primeira costuma ser a que tem melhores resultados, mas compreendo porque por vezes alguns promotores reagem da segunda forma. Não é fácil dar a cara um projecto que dá imenso trabalho, e muitas vezes sem se compreender bem o porquê, o público está a fazer de tudo para o destruir. A reacção natural é explodir. Foi o que aconteceu um pouco neste caso, e eu tentei de alguma forma explicar no post anterior.

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Sou totalmente a favor da iniciativa privada. O envolvimento da sociedade civil na promoção da bicicleta não está suficientemente explorada em Portugal, e todos os projectos e buzzwords que correm no país para a promoção da bicicleta não são suficientes. E temos bons exemplos em Portugal, como a Mubi, a FPCUB, e alguns bloggers como o Bicla no Porto, por exemplo.

Na vertente comercial, o panorama é mais centrado na loja de bicicletas, reparações e produtos relacionados. Não existem no país muitas PME’s suportadas na utilização da bicicleta, e as que existem estão concentradas nas duas grandes cidades. Amiúde existem algumas pequenas empresas de aluguer de bicicleta.

Daquilo que consegui compreender o projecto BikeLau é um projecto neste registo, de iniciativa privada. Correndo alguns riscos estratégicos, parece-me uma excelente iniciativa de um conjunto de investidores privados, que pretendem implementar uma rede de bicicletas viradas para o turismo na orla costeira, e não têm receio em afirmar com convicção que o mercado internacional é um objectivo.

O único problema do projecto foi mesmo a má informação. A massa crítica da bicicleta está farta do abuso do chavão bike-share, sobretudo por parte de representantes municipais. Acontece que neste caso, o chavão foi utilizado pelo representante maior da cidade mais próxima de Aveiro, que foi quem mais mal tratou o conceito de Bike-Sharing nos últimos vinte anos. Lançou-se um número absurdo para o ar (€195K), houve promoção institucional e a celeuma estoirou porque toda a gente pensou que era mais um projecto de bike-sharing mal desenhado. O que não é de todo o caso.

Para todos os efeitos os ânimos acalmaram e já foi perceptível que a interpretação inicial não foi a correcta. Espero sinceramente o melhor para este projecto, e se tudo correr bem, para o ano quero tirar uma foto em cima de uma Angel. Era efectivamente fantástico se cada praia tivesse um sistema de bicicletas tipo cruiser para a malta utilizar.

A minha sugestão: coloquem à disposição algumas bicicletas com o suporte para a prancha de surf ou de skate. Algo tipo isto:

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Que depois também dá para fazer isto:

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XCR Adrep Vila da Palhaça

Participei nos últimos dois eventos de BTT organizados pela ADREP na Palhaça no lado da organização. Este ano sem o vínculo ao grupo decidi participar num tipo de desafio que já me tinha dado alguma alegria e muitas dores.

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Preparação

Sabia de antemão que a organização ia preparar o evento meticulosamente. Já tinha tido a experiência de participar na organização de eventos com esta equipa e sabia bem o tipo de obsessão que esta malta coloca em todos os detalhes das provas que promovem, sobretudo no traçado. Durante as semanas que precederam a prova e à medida que a organização ia ultimando os trabalhos de preparação do percurso, iam chegando reacções de entusiasmo dos participantes, com destaque para a quantidade de singletracks, algumas passagens perigosas e o número de trilhos novos.

Sem ter a possibilidade de visitar os trilhos, fui tirando as minhas conclusões à medida que ia lendo os relatos. As minhas reservas começaram na referência ao número de singles abertos. Da minha experiência com provas e desafios de resistência, à medida que as horas passam, e a minha bitola são as seis horas, é desafio suficiente estar em cima da bicicleta com frescura mental e física suficientes para não cair. Aumentar o desafio acrescentando a componente técnica dos trilhos é na minha opinião uma má decisão porque torna um desafio ao ciclista amador numa tortura sem misericórdia. Na experiência da prova de 24 horas que realizei, o percurso tinha uma descida comprida e técnica e uma grande subida, basicamente. Mas o piso era liso o que permitia rolar em todos os momentos sem resistência ou dificuldade acrescida para o corpo.

Na Palhaça o tipo de terreno ia variar entre passagens por areia, terra e barro branco, o que aliado à chuva das últimas semanas ia complicar de certeza a passagem da bicicleta. Nos anos anteriores os singles abertos pela equipa foram bastante elogiados pelos ciclistas. Quando se abre um trilho, por muitos vezes que seja calcado num espaço de algumas  semanas, ele não ganha imediatamente a suavidade de um troço já existente há bastante anos. Este tipo de trilhos é facilmente perceptível porque não é liso nem linear, onde sucedem a cada centímetro pequenos buracos e protuberâncias, curvas e contra-curvas. Isto não tem qualquer problema em provas de velocidade como uma maratona e até é divertido já que são apenas pequenos troços dois ou três quilómetros numa extensão de quarenta ou sessenta quilómetros, mas tornam-se um verdadeiro pesadelo em provas de resistência, onde três ou quatro quilómetros de uma volta de oito são no mínimo 50% da prova em condições muito exigentes para o corpo.

Tentei não pensar muito nisto e concentrar-me naquilo que podia ter influência: control the controllables.

A semana que antecedeu foi caótica, e não preparei nada. Absolutamente nada. A revisão da bicicleta de btt foi feita na noite anterior, e não rolei um único quilómetro nela. O vestuário não era muito complicado, e a alimentação já sei há bastante tempo o que resulta comigo: fruta, pão com doce e queijo, uma ou duas barras, bolo, massa com carne e água. Tinha que levar um conjunto de luzes e pouco mais, o que me fez adiar o stress da preparação para o último momento possível e aumentar a expectativa na minha participação.

Numa consulta rápida à concorrência, reparei que pouca gente se tinha inscrito no desafio máximo, e apenas conhecia dois desses participantes. O Pedro estava farto de ouvir relatos de um robocop, e percebi que era verdade quando o encontrei na Serra da Estrela. O Jhonny já é meu colega há muitos anos e foi um dos que alinhou na mesma aventura comigo duas semanas antes, pelo que tinha mais ou menos presente o seu ritmo.

O Plano

Não tinha. Apenas sabia que tinha de começar lento, pedalar leve, alimentar-me, e esperar que o corpo não reagisse mal à prova. Se isso acontecesse, com mais ou menos quilómetros conseguiria acabar.

A prova

Devia ser o único à partida da prova que ainda não tinha experimentado o percurso, por isso fiz questão de arrancar atrasado e lento para não me meter na confusão dos primeiros quilómetros.

No final da primeira volta estava francamente espantado com o trabalho da equipa. Grande parte do percurso era feito em singletrack, quase sem fases para relaxar o corpo e a atenção. Procurei encontrar um ritmo consistente, que me permitisse fazer tempo por volta mais ou menos regulares. No entanto, já durante a terceira volta e quando o pelotão já estava totalmente fraccionado, estava a rolar com o Jhonny (que fez comigo a Subida à Torre umas semanas antes) e a sentir o peso da minha estupidez. O traçado era francamente pesado e muito pesado para este tipo de prova, e as mudanças de ritmo constantes e o piso dos trilhos novos com muito pouca rodagem já estavam a fazer moça em todo o corpo e ainda não tinha duas horas de prova (sim é para ler sem respirar). O impulso de participar numa resistência de 12 horas a solo foi um erro absurdo. Estava em boa forma, a minha melhor de sempre talvez, mas aquele percurso não era de todo para mim, e eu sabia-o desde sempre.

Felizmente estava a acompanhar uma pessoa com muito mais bom senso que eu, e fomos fazendo pequenas pausas de duas em duas voltas. Na verdade era o máximo que conseguia aguentar, já que as dores nos pulsos e nas costas faziam-me lembrar os primeiros quilómetros de btt que fiz há já muitos anos.

A concorrência também estava a acusar onde o único que mantinha o ritmo era o Pedro Rodrigues, numa marcha furiosa sem quebrar. Optei por levar o resto da prova com calma, num ritmo coerente com o esforço, e prevenindo falhas mecânicas ou quedas estúpidas, fazendo pequenas pausas a cada duas voltas. Ao início da tarde, caiu uma grande tromba de água que deixou novamente os trilhos uma lástima. Com o pelotão quase todo resguardado nas tendas, ficou a expectativa em quem é que retomava o ritmo. Decidi retomar a prova e fazer as últimas cinco ou seis horas. O Jhonny seguiu-me mas depois de uma volta onde andámos os dois aos papeis em cima da bicicleta, ele decidiu parar e eu continuei. Na verdade só me apercebi na volta seguinte.

O resto da prova não teve história. Basicamente arrastei-me, doseando as dores já insuportáveis em todo o corpo, e fui somando erros atrás de erros, num momento o cérebro acusava falta de discernimento e paciência. Decidi que depois daquele esforço todo, tinha que fazer uma volta à noite, e então montei as luzes. Arranquei e passado quarenta minutos concluí a última volta.

Conclusões

Fiquei bem classificado, mas isso pouco interessou porque fiquei totalmente derrotado por dentro. Toda a prova tinha foi feita em desconforto, e nunca consegui realmente encontrar um ritmo que me permitisse gozar a adrenalina da corrida. O meu receio antes da prova foi cumprido. Este ano praticamente só rolei em estrada, o que me aperfeiçoou num ritmo muito controlado e sem grandes amplitudes. O registo naquela prova obrigou-me a um registo totalmente oposto, e se as pernas e a caixa até corresponderam, a têmpera nem por isso.

A prova estava brilhantemente organizada, e o percurso foi elogiado ao limite por todos os participantes. Eu é que não me adequei.

Um exemplo clássico de “não és tu, sou eu.”

Almoço descontraído
Almoço descontraído
Jhonny a descarregar-me
Jhonny a descarregar-me

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A minha vida é tão trágica que a única vez que subi ao pódio, fiquei sem cabeça
A minha vida é tão trágica que a única vez que subi ao pódio, fiquei sem cabeça

 

Campeonato do Mundo de Ponferrada

Dentro de alguns minutos entra em directo na RTP2 a transmissão da prova, colocando um ponto final numa cobertura exaustiva durante toda a semana do evento.

Independentemente do resultado, este é o grande sinal de um ano incrível. Num espaço de um ano este país falou de ciclismo como nunca antes. O grande culpado é claro Rui Costa, que vem fazendo de há uns para cá um trabalho impressionante de contacto entre desporto e o grande público.

O ano de 2013 que culminou com o título de Campeão Mundial foi só um episódio que ajudou a galvanizar este trabalho e a comunicar definitivamente uma franja bastante expressiva de apreciadores de desporto que vão para além do futebol.

Hoje a Selecção Nacional corre com os seis primeiros números, já que é a formação a que lhe cabe defender o título. Ao que parece o traçado não é o ideal para as nossas características. As previsões e as tácticas deixo para os entendidos, mas eu deixo os dois pontos que importam. Esta Selecção Nacional tem a vantagem das vísceras. A qualidade que por mais que se treine ou se aproprie das melhores condições, se consegue alcançar, porque isso nasce connosco e vai para o lado da paixão que se desenvolve ao longo dos anos. Por isso sabemos que independentemente dos desenvolvimentos, os nossos corredores vão deixar tudo o que têm na estrada. Sem compromissos nem tretas.

Entretanto chove. Dado que metade da nossa formação é minhota ou próxima, e o Nelson Évora é da Bairrada, arrisco dizer que as condições estão a nosso favor.

Boa sorte malta