BRM Douro Vinhateiro 200

Vou interpretar esta como uma experiência zero. Um tomo que vou considerar de aprendizagem e que me permitirá olhar os próximos com a maturidade suficiente. A possível pelo menos.

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O início deste Brevet dava-se em Entre-os-Rios às 08.00h, na Pousada do Inatel, pelo que combinei com o Joel e o Rui partir de Aveiro de comboio, e seguir até Penafiel. A ligação entre as duas ligações seriam feitas de bicicleta. Em teoria o plano resultava, mas a partida passou para as 07.00h e a suposta ligação de Penafiel à Pousada que era sempre a descer, revelou-se num belo aquecimento para as pernas, em ritmo acelerado para chegar a tempo do Controlo 0.

Entretanto, já tinha um problema muito maior do que o atraso perante os restante. Sem nada que o fizesse prever, o parafuso do meu aperto de espigão cedeu, e o espigão descia a cada pedalada. Às 08.00h não tinha qualquer loja nas imediações aberta, e com o atraso que já tínhamos, eu já tinha a minha primeira experiência comprometida à partida.

Felizmente depois de umas indicações com pessoas locais, apontaram-nos um mecânico que nos facultou um parafuso capaz. Uma improbabilidade foi resolvida por uma outra probabilidade. Encontrar um mecânico em Entre-os-Rios quando o sol mal se tinha levantado. Dito isto, já tínhamos duas horas de atraso para os restantes, e uma agravante potencial. Por volta das 11.00h o vento subiria de intensidade, e nós íamos levar com ele de frente de certeza. Reservei o alarme para mim, e iniciei a marcha com o Joel em ritmo acelerado, decididos a recuperar algum tempo perdido.

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Os primeiros quilómetros foram feitos nas margens Norte do Rio Douro, num constante sobe e desce, sempre numa cota moderada. Esta foi para mim uma das fases mais divertidas do percurso, porque permitia vistas fantásticas para o Rio, e o gozo de subir e descer de bicicleta em estradas técnicas. Passamos o 1º Controlo com mais de uma hora depois de atraso do fecho, pelo que reinterpretámos o resto dia a partir dali. Como já estava fora de contas a acreditação, decidimos continuar o percurso definido a um ritmo que nos fosse confortável e permitisse desfrutar ao máximo.

Os quilómetros seguintes foram brilhantes. A N108 desenvolve-se ao longo da margem Norte do Rio Douro, e apenas se afasta deste quando sente necessidade de contornar uma montanha mais pronunciada ou visitar uma aldeia. Este tipo de estrada permite a cada curva à esquerda, ser confrontado com as imagens deslumbrantes que estamos habituados a ver nas fotografias de postal.

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Na chegada à Régua, tínhamos de passar a ponte para a margem Sul, e abordar a N222, que percorre o acompanha o Rio Douro em cota quase sempre nula. Até Pinhão, o local do 2º Controlo e sensivelmente metade do percurso, percorremos pouco mais de 20 km. As minhas reservas cumpriram-se e fizemos esse tomo sempre com o vento violento de frente, limitando a velocidade a uns enstonteantes 22km/h em reta e plano. Como não estávamos preocupados com a velocidade fomos alternado a palheta, umas fotos e uns expontneos cumprimentos com os ciclistas que se cruzavam. Alguns deles eram os participantes comuns do brevet, e facilmente distintos pelo equipamento que usavam.

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Encontramos o Rui e um colega pouco antes de chegar a Pinhão num restaurante, e percebi que se não parasse no ponto intermédio, iríamos anular a diferença. Obviamente paramos para almoçar e desfrutar da localidade. O passeio era o nosso e apenas estávamos comprometidos com o gozo de passear. E esse estava no auge. Nunca tinha visitado aquela zona do Douro de bicicleta, e não conhecia de todo a localidade.

Pinhão

A perspectiva sobre o Douro na bicicleta é totalmente diferente do carro e do barco. À medida que vamos avançando por aquelas estradas, vamos tendo várias perspectivas sobre o espaço, sobre cada contorno de montanha e cada curva do Rio. Facilmente prendemos a atenção numa determinada casa, árvore, vinha ou mesmo pedra, e à medida que nos deslocamos temos oportunidade de a ver de várias formas. O cheiro do Rio nunca desaparece, mas amiúde perde a intensidade sempre que subimos um pouco.

O regresso foi feito inicialmente a uma velocidade consideravelmente superior. A nacional que havíamos feito com vento de frente, permita agora galgar quilómetros rapidamente. Em pouco mais de meia hora estavamos novamente na Régua, e iniciámos a parte que não fazia ideia ser assim. O regresso pela margem Sul do Rio Douro, na minha cabeça, por algum motivo, seria integralmente feita a cota zero em toda a sua extensão. A extensão de montanhas que me acompanhara de manhã seria intocável. A viragem à esquerda e depois à direita na passagem à Regua, revelou-me uma surpresa. Os últimos quilómetros, os últimos quase 80 km eram feitos em montanha. Isto não seria necessariamente um problema, não fosse o adiantado da hora. As minhas contas de concluir a tirada por volta das 07.30h começavam a ficar comprometidas à medida que íamos subindo, e ficava cada vez mais mentalizada que ia pedalar uns longos minutos à noite.

Não acusei. Estava relativamente confortável, e à medida que o humor do Joel se esbatia, fui contando algumas anedotas. Quem me conhece, sabe o meu reportório de sketch’s de Gato Fedorento, e a ausência absoluta de talento para a representação, nunca me coíbe de o partilhar com quem me acompanha. Posso argumentar ao mundo neste momento, que sou o primeiro terráquo que subiu todas as subidas até Cinfães, enquanto recitava a passagem da Entrevista a Gente Rude do Campo, a Entrevista ao Abominável Homem das Neves, ou mesmo um Badboy MC Crazy Motherfucker. Alguém tem de desbravar as novas fronteiras da Humanidade, e eu enquanto ciclista, faço-o sem pudor.

Um momento de indecisão em Resende

As montanhas sucederam-se e fomos doseando o cansaço acumulado. À chega a Resende, o 3º Controlo havia fechado há poucos minutos, e fizemos o óbvio: paramos uns minutos para descansar e comer algo. Segundo indicações locais, dali até Entre-os-Rios eram um tiro, e quase sempre a descer. Eu acreditei. Acredito sempre. Sou pela fé inabalável. A obsessão que tenho por informação e preparação antes dos eventos, dá sempre mas sempre lugar à abstinência de sentido, e mesmo que algo me indique do contrário, eu acredito que vou descer cerca de 50 km.

Não aconteceu. Subimos ainda mais algumas vezes, e mesmo eu comecei a acusar. Não tanto o cansaço físico, mas o sono. Estava exausto da semana, e dormi pouco mais de três horas de Sexta-Feira para Sábado, pelo que a têmpera acusou tudo. Decidi tomar a rédea à situação e tornei a descontracção em postura assertiva. Fazer qualquer erro naquele momento, e àquela distância, seria comprometer a tirada e um grande problema. Fui pedalando calmamente e desfrutando da paisagem à medida que a noite se instalava. Algumas nuvens começaram a formar-se e fomos apanhando alguns chuvadas amiúde, pelo que teríamos o desafio do piso escorregadio.

Eu gosto muito de pedalar à noite, e não tenho problema algum de pedalar com chuva, apesar de não adorar. O Joel também não se manifestou contra. Por algum motivo, a parte do dia reservada ao tráfego foi à passagem de Cinfães o que com a chuva causou algum nervosismo. Lidamos a situação com calma, e quando os mais atrasados chegavam à missa das sete, já nós íamos convictos virados a Entre-os-Rios. Tínhamos menos de 20 kms pela frente, o que seria mais ou menos uma hora de caminho.

Este último tomo foi muito divertido, em parte devido às condições. Descer à noite, apesar de ser mais perigoso, proporciona uma adrenalina brutal, o que aliado à chuva aumenta ainda mais a dose. A velocidade moderada, recebemos descargas brutais de adrenalina, que ajudam a somar quilómetros. E para todos os efeitos, apesar de estarmos um pouco cansados, ainda estávamos a pedalar no Douro, e isso por si só era brilhante. Por volta das 08.30h chegámos a Entre-os-Rios e fui novamente surpreendido. Pensava, que como habitualmente, todo o grupo se tinha dispersado e direccionado para casa após a conclusão da etapa. Aquele grupo, que não nos conhecia e mal nos tinha visto, estava à nossa espera porque sabia que dois colegas estavam na estrada. As palavras que troquei foram toldadas por alguma lentidão a processar tudo. Estava literalmente com dificuldade em gerir o cansaço, a satisfação e a conversa com os novos colegas.

Passado uns minutos, todo o grupo estava no restaurante mais próximo a contar as peripécias, as histórias e impressões sobre o percurso. Afinal havia um grupo de pessoas que falava a minha língua, como na música, e eu demorei alguns a descobrir.

O dia ainda não estava terminado, porque tínhamos que seguir até Penafiel e apanhar o comboio. O Joel teve um furo, e a seguir outro, e num espaço de três minutos a noite estragou-se. Os nervos acumularam-se e o comboio começava a ficar comprometido. Numa sucessão de momentos de pouca lucidez, aconteceu o intolerável e só dois de nós é que conseguimos entrar no comboio, à justa. Após uma troca de telefonemas resolveu-se a questão, mas ficámos com o dissabor do regresso incompleto.

Este foi o episódio que ajudou a dar por esta a primeira experiência num mundo novo. As grandes tiradas não me são novas. Mas a autonomia total, neste registo é. Por mais paranóico que seja com a preparação, não o fui, e o tipo de soluções que costumo utilizar, não são válidos neste tipo de passeios. Após tantos anos de ciclismo que levo, continuo a ser surpreendido com novas circunstâncias que me obrigam a empurrar a fronteira mais para lá. E é esse o tipo de experiência que procuro. Se no futuro quiser tomar a decisão de participar noutro brevet, sei que tenho de repensar a maneira como o abordar. Uma coisa é certa. De comboio não será.

love

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One thought on “BRM Douro Vinhateiro 200

  1. Grande registo! Que dia endiabradamente tramado! Já corri essas estradas de enlatado…raivoso por não poder trocar de “montada” nesse momento!! Temos de combinar um fartote de Régua e arredores!!!

O ciclista incrível preza a palavra alheia

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