XCR Adrep Vila da Palhaça

Participei nos últimos dois eventos de BTT organizados pela ADREP na Palhaça no lado da organização. Este ano sem o vínculo ao grupo decidi participar num tipo de desafio que já me tinha dado alguma alegria e muitas dores.

cartaz xcr

Preparação

Sabia de antemão que a organização ia preparar o evento meticulosamente. Já tinha tido a experiência de participar na organização de eventos com esta equipa e sabia bem o tipo de obsessão que esta malta coloca em todos os detalhes das provas que promovem, sobretudo no traçado. Durante as semanas que precederam a prova e à medida que a organização ia ultimando os trabalhos de preparação do percurso, iam chegando reacções de entusiasmo dos participantes, com destaque para a quantidade de singletracks, algumas passagens perigosas e o número de trilhos novos.

Sem ter a possibilidade de visitar os trilhos, fui tirando as minhas conclusões à medida que ia lendo os relatos. As minhas reservas começaram na referência ao número de singles abertos. Da minha experiência com provas e desafios de resistência, à medida que as horas passam, e a minha bitola são as seis horas, é desafio suficiente estar em cima da bicicleta com frescura mental e física suficientes para não cair. Aumentar o desafio acrescentando a componente técnica dos trilhos é na minha opinião uma má decisão porque torna um desafio ao ciclista amador numa tortura sem misericórdia. Na experiência da prova de 24 horas que realizei, o percurso tinha uma descida comprida e técnica e uma grande subida, basicamente. Mas o piso era liso o que permitia rolar em todos os momentos sem resistência ou dificuldade acrescida para o corpo.

Na Palhaça o tipo de terreno ia variar entre passagens por areia, terra e barro branco, o que aliado à chuva das últimas semanas ia complicar de certeza a passagem da bicicleta. Nos anos anteriores os singles abertos pela equipa foram bastante elogiados pelos ciclistas. Quando se abre um trilho, por muitos vezes que seja calcado num espaço de algumas  semanas, ele não ganha imediatamente a suavidade de um troço já existente há bastante anos. Este tipo de trilhos é facilmente perceptível porque não é liso nem linear, onde sucedem a cada centímetro pequenos buracos e protuberâncias, curvas e contra-curvas. Isto não tem qualquer problema em provas de velocidade como uma maratona e até é divertido já que são apenas pequenos troços dois ou três quilómetros numa extensão de quarenta ou sessenta quilómetros, mas tornam-se um verdadeiro pesadelo em provas de resistência, onde três ou quatro quilómetros de uma volta de oito são no mínimo 50% da prova em condições muito exigentes para o corpo.

Tentei não pensar muito nisto e concentrar-me naquilo que podia ter influência: control the controllables.

A semana que antecedeu foi caótica, e não preparei nada. Absolutamente nada. A revisão da bicicleta de btt foi feita na noite anterior, e não rolei um único quilómetro nela. O vestuário não era muito complicado, e a alimentação já sei há bastante tempo o que resulta comigo: fruta, pão com doce e queijo, uma ou duas barras, bolo, massa com carne e água. Tinha que levar um conjunto de luzes e pouco mais, o que me fez adiar o stress da preparação para o último momento possível e aumentar a expectativa na minha participação.

Numa consulta rápida à concorrência, reparei que pouca gente se tinha inscrito no desafio máximo, e apenas conhecia dois desses participantes. O Pedro estava farto de ouvir relatos de um robocop, e percebi que era verdade quando o encontrei na Serra da Estrela. O Jhonny já é meu colega há muitos anos e foi um dos que alinhou na mesma aventura comigo duas semanas antes, pelo que tinha mais ou menos presente o seu ritmo.

O Plano

Não tinha. Apenas sabia que tinha de começar lento, pedalar leve, alimentar-me, e esperar que o corpo não reagisse mal à prova. Se isso acontecesse, com mais ou menos quilómetros conseguiria acabar.

A prova

Devia ser o único à partida da prova que ainda não tinha experimentado o percurso, por isso fiz questão de arrancar atrasado e lento para não me meter na confusão dos primeiros quilómetros.

No final da primeira volta estava francamente espantado com o trabalho da equipa. Grande parte do percurso era feito em singletrack, quase sem fases para relaxar o corpo e a atenção. Procurei encontrar um ritmo consistente, que me permitisse fazer tempo por volta mais ou menos regulares. No entanto, já durante a terceira volta e quando o pelotão já estava totalmente fraccionado, estava a rolar com o Jhonny (que fez comigo a Subida à Torre umas semanas antes) e a sentir o peso da minha estupidez. O traçado era francamente pesado e muito pesado para este tipo de prova, e as mudanças de ritmo constantes e o piso dos trilhos novos com muito pouca rodagem já estavam a fazer moça em todo o corpo e ainda não tinha duas horas de prova (sim é para ler sem respirar). O impulso de participar numa resistência de 12 horas a solo foi um erro absurdo. Estava em boa forma, a minha melhor de sempre talvez, mas aquele percurso não era de todo para mim, e eu sabia-o desde sempre.

Felizmente estava a acompanhar uma pessoa com muito mais bom senso que eu, e fomos fazendo pequenas pausas de duas em duas voltas. Na verdade era o máximo que conseguia aguentar, já que as dores nos pulsos e nas costas faziam-me lembrar os primeiros quilómetros de btt que fiz há já muitos anos.

A concorrência também estava a acusar onde o único que mantinha o ritmo era o Pedro Rodrigues, numa marcha furiosa sem quebrar. Optei por levar o resto da prova com calma, num ritmo coerente com o esforço, e prevenindo falhas mecânicas ou quedas estúpidas, fazendo pequenas pausas a cada duas voltas. Ao início da tarde, caiu uma grande tromba de água que deixou novamente os trilhos uma lástima. Com o pelotão quase todo resguardado nas tendas, ficou a expectativa em quem é que retomava o ritmo. Decidi retomar a prova e fazer as últimas cinco ou seis horas. O Jhonny seguiu-me mas depois de uma volta onde andámos os dois aos papeis em cima da bicicleta, ele decidiu parar e eu continuei. Na verdade só me apercebi na volta seguinte.

O resto da prova não teve história. Basicamente arrastei-me, doseando as dores já insuportáveis em todo o corpo, e fui somando erros atrás de erros, num momento o cérebro acusava falta de discernimento e paciência. Decidi que depois daquele esforço todo, tinha que fazer uma volta à noite, e então montei as luzes. Arranquei e passado quarenta minutos concluí a última volta.

Conclusões

Fiquei bem classificado, mas isso pouco interessou porque fiquei totalmente derrotado por dentro. Toda a prova tinha foi feita em desconforto, e nunca consegui realmente encontrar um ritmo que me permitisse gozar a adrenalina da corrida. O meu receio antes da prova foi cumprido. Este ano praticamente só rolei em estrada, o que me aperfeiçoou num ritmo muito controlado e sem grandes amplitudes. O registo naquela prova obrigou-me a um registo totalmente oposto, e se as pernas e a caixa até corresponderam, a têmpera nem por isso.

A prova estava brilhantemente organizada, e o percurso foi elogiado ao limite por todos os participantes. Eu é que não me adequei.

Um exemplo clássico de “não és tu, sou eu.”

Almoço descontraído
Almoço descontraído
Jhonny a descarregar-me
Jhonny a descarregar-me

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A minha vida é tão trágica que a única vez que subi ao pódio, fiquei sem cabeça
A minha vida é tão trágica que a única vez que subi ao pódio, fiquei sem cabeça

 

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O ciclista incrível preza a palavra alheia

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