Subida à Torre

O objectivo era audaz, mas simples. Sair da Palhaça cedo, pedalar até Seia, subir à Torre e voltar pelo mesmo caminho. O plano não foi cumprido, mas não deixámos de fazer uma volta exigente e fantástica.

arranque

Sou sempre bastante cuidadoso e criterioso com a preparação de voltas que envolvem um esforço fora do normal. O plano para este dia era facilmente a volta mais exigente e extensa que alguma vez tinha feito, o que me levou a paranóia aos píncaros. Felizmente, o grupo teve o apoio da loja Slowdown, que nos facultou uma carrinha, e facilitou todo o processo de logística e alimentação.

O arranque deu-se da Palhaça, às cinco horas da manhã. Teríamos pela frente logo de início a transposição do Moinho do Pisco, e posteriormente um segmento de parte pernas pela região do Dão, entre Mortágua e Seia, e a primeira metade acabaria com a subida à Torre. Feitas as contas, sabíamos que por volta das 13.30h teríamos que estar lá em cima, para fazer confortavelmente a viagem de regresso.

madrugada

Os primeiros quilómetros foram feitos em noite cerrada, mas com excelente temperatura. O dia só surgiu quando já tínhamos a primeira subida feita, e abordávamos a zona Este da parede que separa o litoral do interior. Neste caso, o local escolhido para transpor a cordilheira de montanhas, foi o Moinho do Pisco, o que implicou uma subida interessante logo na primeira hora, e as primeiras gotas de suor.

Depois da primeira paragem em Santa Comba Dão e com sensivelmente duas horas a rolar, começámos a fase mais agradável do dia. Um percurso relativamente sinuoso, de sobe e desce que só foi interrompido quando ao abordar Seia, entrámos na N17 e com isso, a companhia de carros e camiões.

empinada

A segunda paragem foi feita imediatamente antes de Seia. As pernas já tinham algum cansaço acumulado, e naquele momento convinha ter o estômago confortável, atestar os bidons e os bolsos para os próximos 30km. Para mim, seria a primeira vez que subiria a Torre por estrada, e estava bastante excitado com o desafio que tinha pela frente. Sabia que se não cometesse erros com a alimentação, e gerisse o esforço, mais tarde ou mais cedo chegaria ao topo. O truque era garantir reservas para o regresso à Palhaça.

paragem

A passagem por Seia foi meia atabalhoada, e entre o grupo a estratégia era partilhada: subir na mais leve, alimentar, pedalar nas descidas, e desfrutar ao máximo. Estava concentrado ao máximo em cumprir ao plano. Naquela circunstância, cometer um erro por distracção ou entusiasmo, podia significar comprometer o resto do dia. À passagem pelo Museu do Pão, já tinha o prato pequeno engatado, e a cadência frenética começava a fazer-se notar no cardiofrequencimetro. Mantive o ritmo, e rapidamente a pulsação começou a estabilizar num intervalo minimamente confortável, e sem causar grandes estragos. Naquele ritmo, e pelas minhas contas de cabeça, os anunciados 27km seriam concluídos em cerca de duas horas, o que significava ingerir os dois bidons que tinha, e comer duas vezes.

subida

À chegada ao Sabugueiro tinha uma pequena diferença positiva para os meus colegas, e a carrinha de apoio fazia pequenas paragens até que passasse todo o grupo. O tempo estava a ficar coberto mas estava relativamente confortável. Até ali tinha sido complicado, mas sabia que a pior parte era logo no entretanto, pelo que pedalei na pequena descida de um quilómetro, e entrei a pedalar rapidamente na parede que se segue. A partir dali até à Lagoa Comprida, a pendente era dolorosa, mas a Serra tratou de nos aconchegar com um acréscimo de dificuldade. Alguns metros galgados e à passagem das nuvens, o tempo encoberto deu lugar a murrinha e brisa, que rapidamente se tornou em chuva, nevoeiro cerrado, vento forte e frio. À passagem pela Lagoa estava totalmente encharcado só com um jersey, sozinho, com uma distância estimada de cerca de quinze minutos para os meus colegas, e começar a acusar à bruta o abuso das condições. O cansaço acumulado, e o frio que acusava estava a fazer com que gradualmente diminuísse o ritmo, o que estava a diminuir o calor produzido pelo esforço no corpo. Num momento dei por mim a rodar a cerca de 120ppm o que significava que estava praticamente a rolar sem esforço, e a entrar numa espécie de espiral.

Felizmente a carrinha de apoio alcançou-me e pedi o colete. A partir dali estava mais resguardado do frio, mas o mal estava feito, e só tinha que dosear calmamente o empeno até ao topo. Concentrei-me em curtir a subida e as condições. Era irónico que a primeira vez que subia a Serra da Estrela em pleno Verão, e com todo o cuidado que tinha preparado a tirada, estava tão vulnerável e exposto. A nova perspectiva da Serra a partir da bicicleta, estava a ser apimentada pela sua capacidade de surpreender. Não via nada a um raio de 15m à minha frente. Apenas sentia o vento, a chuva e o frio a violentar-me, e isso estava-me a dar um gozo estranho. Não estava de todo na minha zona de conforto, e estava entregue à minha capacidade para me desenvencilhar. Mais de duas horas de esforço extremo colocam todo o corpo em sentido, e num registo que dificilmente experienciamos em dias normais.

Entretanto, alguns ciclistas mais frescos começaram a alcançar-me, e juntei-me a eles. Foi mais fácil aumentar ligeiramente o ritmo, e pouco depois de passar a pista, que só reconheci pelos parques de estacionamento, estava ao lado de uma rotunda que não consegui reconhecer. Feitas as despedidas e agradecimentos aos meus novos colegas, dirigi-me diretamente para a casa mais perto. Tinha um colega do meu grupo à minha frente, pelo que ele devia andar algures por ali, mas como não o encontrei, entrei no Restaurante para me aquecer.

torre

Passados alguns minutos chegaram os meus colegas e estávamos todos surpreendidos com as condições. No Centro Comercial comemos e trocámos algumas impressões, enquanto cada um tentava se aquecer e perceber o que tinha acontecido. Há duas horas e meia circulávamos de jersey e animados, e agora conversávamos totalmente exaustos e exausto. No entanto, estávamos extasiados com a experiência. De certeza haverá uma resposta neurológica, mas o tipo de experiência por que tínhamos passado colocou-nos num estado totalmente revolucionário, confuso e inebriante. Uma mistura de frio quase perigoso, cansaço e adrenalina nos píncaros. E fome. Muita fome, o que facilmente resolvemos, porque estávamos no sítio certo.

Obviamente, a reacção foi recíproca e indiscutível. A jornada estava concluída naquele dia, e apenas tínhamos o encargo de nos divertir o resto do dia. O plano tinha sido dilacerado a meio, e nenhum de nós se sentia minimamente desconsolado com a experiência. Nenhum quilómetro ficou por fazer, nem algum metro por subir, e os meses ortodoxos de Verão foram encerrados com uma experiência nova para todos.

Da minha parte, senti que tinha afinado o corpo para o desafio que vou enfrentar no próximo fim de semana. O único da temporada.

 

Alguns dados da volta

Distância: 140 km
Tempo: 06:50h
Acumulado: 3970m
Calorias: 4740
Ingerido: quatro bidons, pequeno-almoço, 1 nata, uma barra consistente, e 4 barras da decathlon.  :)

 

percurso completo

 

Subida à Torre

Distância: 28.5km
Acumulado: 1443
Inclinação média: 5.1%
Inclinação máxima: 15.6%
Tempo: 143minutos

 

subida

gráfico

Dados, gráficos e infografias para todos os gostos aqui e aqui.

 

O meu agradecimento aos meus colegas de viagem, Daniel, Pinhal, Lameiro, Nelson, Taco e António. E um especial ao Bruno que nos acompanhou na carrinha, e à loja slowdown que nos facultou a carrinha.

Love

palhaça
A foto de grupo, já na Palhaça no Café S. Pedro, devidamente alimentados e reconfortados.

 

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O ciclista incrível preza a palavra alheia

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