Subida ao Caramulo

Agora com propriedade. Assumir-me o Ciclista Incrível agora é justo uma vez que chego a pedalar duas vezes na mesma semana. Os meses de calor são definitivamente os meus preferidos, e prefiro sem pensar andar de bicicleta com temperaturas acima dos 30º a fazê-lo com médias abaixo dos 10º.

Na semana passada desafiei o Bruno Oliveira que se movimenta furiosamente nas lides do triatlo para subir o Caramulo, com partida de Oiã. As temperaturas previstas iam passar os 35º, pelo que optámos por partir muito cedo, carregados de água e vontade de concluir o percurso em menos de quatro horas. Para ele ia ser a primeira vez que ia subir àquela vila, e para mim ia-me estrear com bicicleta de estrada naquela subida.

Se sou fundamentalista, é apenas da bicicleta. Estava bastante expectante em subir numa bicicleta de estrada, a subida que fiz inúmeras vezes numa bicicleta de montanha, por isso quando cruzei o sinal que indica a vila a 31 km, lembrei-me que havia uma experiência nova prestes a começar. Lembrei-me também de agoirar também a cabeça do meu colega. O Bruno manteve-se incólume.

Pedalar uma bicicleta é na maioria do tempo um gozo indescritível, e quando não o é, é pelo menos o sítio onde eu prefiro estar acima de qualquer outro. Recorro frequentemente a esta instituição minha, sobretudo quando me meto com quem não devo. Foi o caso. Até à vila são cerca de cinquenta quilómetros, com mais de 35 km a subir. A subida de 30km já a conheço de cabeça, e sei facilmente doseá-la. Por isso, e como ando inspirado com o Tour, limitei-me a seguir na roda do meu colega por ali acima num ritmo que ele encontrou confortável. Não era claramente o meu ritmo confortável, uma vez que não faço competição, e muito menos tenho treino disso, mas sabia que se não passasse daquilo, ia conseguir acompanha-lo até lá acima. O resto seria o problema de outra hora.

Quando passámos S. João do Monte, momento em que já tínhamos 20km de subida seguidos e quase uma hora, avisei-o que a pior parte seria dali para a frente. O comentário passou-lhe ao lado, e o ritmo dele manteve-se. Eu, surpreendentemente sentia-me composto, pelo que fui alternando o lugar com ele. Quando faltavam cerca de cinco quilómetros, o cansaço acumulado começou-lhe claramente a pesar, e eu tive a oportunidade única de gozar um momento de superioridade física. Não hesitei em atacar que nem um Froome, e o Bruno manteve o ritmo dele. Nem deu gozo confesso, e senti-me uma besta sem sentimentos. Um verdadeiro animal sem problemas em desferir o golpe derradeiro.

Descobri um coisa nesta subida. Não só sou completamente desprovido de capacidades físicas para a competição (e locomoção no geral), como descobri que me fico a sentir mal quando experiencio uma pequena vitória com um companheiro. O remorso acompanha o meu léxico desportivo, e creio que esta não é uma boa fórmula de competição. Esta conclusão foi só para confirmar prioridades, não se vá dar o caso de eu me lembrar um dia de treinar para uma corrida.

Visitado o Caramulo, comido um bolo seco, e pagos cinco cêntimos que tinha ficado a haver na última visita lá, na pastelaria do costume, voltámos pelo mesmo caminho. A saída do Caramulo é feita por uma rampa inclinada de dois quilómetros, que custaram mais que os trinta anteriores. Sempre que paro, sofro monstruosamente até volta a aquecer, mas ali claramente percebi que tinha passado do limite na subida grande, e ia ter de gerir muito bem até Oiã.

A descida grande foi feita rapidamente, enquanto o sol se começava a empinar, e o calor apertava muito. Já passava das dez, e havia que sair da zona de Águeda. Nesse mesmo momento, senti o peso da humilhação sobre a forma de empeno. Estava a começar a pagar o peso do esforço desadequado, e a desidratação estava a começar a ser um problema sério. Por muita água que bebesse.

Cautelosamente, coloquei então o meu ritmo, e segui calmamente os últimos vinte quilómetros, num combinado de temperaturas absurdas, trânsito inadequado, água com fartura, e orgulho violado. O Bruno fazia paragens de dois em dois minutos para esperar por mim, e eu aprendi uma lição.

Lembram-se da máxima que citei há pouco. Não durou dois segundos na minha cabeça quando recorri a ela, e só me insultava por aquele momento. As esplanadas e a biblioteca são sítios tão melhores quando sofro na bicicleta. Porque é que não me dedico à boémia.

Podem ver alguns pormenores no registo do strava, e umas fotografias no flickr.

Subida ao Caramulo

Fiz também um vídeo.

Sou um homem das tecnologias está visto.

Anúncios

O ciclista incrível preza a palavra alheia

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s