Portugal Open XCR, Abrantes III

Prestação

Quando pouco faltava para o sinal de partida, já uma quantidade assinalável de coisas não tinham corrido como o esperado, com o principal destaque para a viagem a Abrantes a sofrer um atraso brutal, que só acabou por volta das três da manhã. Um cenário de sonho quando estamos prestes a participar numa prova de resistência de 24 horas.

Quando foi dado o sinal de partida, ao estilo Le Mans, não fazia a mínima ideia de onde me estava a meter, nem como seria uma prova com estas características. A única coisa que tinha em mente, é que 24 horas é uma estupidez absurda de tempo, e para conseguir concluir não poderia cometer grandes erros, técnicos e sobretudo alimentares, pelo que me mantive na retaguarda do pelotão, prevendo a habitual loucura desenfreada que são os primeiros quilómetros. E a verdade é que não me enganei. Os primeiros quilómetros, mesmo para o pessoal que está a fazer as maiores provas, 12 e 24 horas, são feitos à morte, com voltas incrivelmente rápidas. Para quem já tem alguma estaleca nesta disciplina, é uma estratégia acertada, uma vez que durante tantas horas, mesmo que venhamos a sofrer as consequências deste abuso, temos bastante tempo para as dosear e há possibilidade de abrandar o ritmo e compensar o gasto de energia.

Não obstante, consegui manter o meu plano inicial de encontrar o meu ritmo e conseguir absorver o maior número de pormenores possíveis do percurso. Este composto na sua maioria por singles, bastante técnicos e traiçoeiros, uma violência com que não contava mas que se revelou ao meu jeito, já que conseguia manter um ritmo fluído nas zonas mais sensíveis e poupava muito tempo e energia dessa forma. Quando caiu a noite já tinha decorado praticamente o percurso, mas a novidade que era para mim pedalar com o auxílio das luzes não se revelou de grande sucesso. Uma análise cuidada dos tempos discriminadamente, e encontrei diferenças de mais de dez minutos por volta a partir desse momento.

Para comer, recorri sobretudo ao que tinha trazido de casa. A selecção de coisas de que gosto e que me pudessem garantir a energia constante durante as horas da prova foi feita mais ou menos cuidadosamente, e foi-me periodicamente fornecida durante prova pela minha namorada sempre que lhe pedia. Quando passava na meta, indicava-lhe o que queria, e quando lá passava na volta a seguir, agarrava e comia nos primeiros 500 metros que não exigiam grande atenção ao percurso. O mesmo se passou com a água, sensivelmente, bebia um bidão a cada duas voltas, e não senti durante a prova qualquer sinal de falta de alimentação nem de hidratação. Nota especial para um record mundial absoluto: urinei sem exagerar mais de 30 vezes durante toda a prova. Por norma, tinha mesmo que parar uma vez por volta, o que meu deu uma excelente oportunidade de marcar o território todo. Não sei se passou o mesmo com os outros, mas comigo foi uma situação inédita e surpreendente. Agora que penso, deve-me ter custado ao todo uns bons minutos.

Por volta das três da manhã senti uma grande quebra, sobretudo de concentração, confirmada pelas voltas que estava a fazer, cerca de 15 min mais que o normal. Na verdade, já estava a pedalar à 15 horas ininterruptamente, pelo que optei por descansar um pouco, e comer uma grande pratada de massa, e um sumo hidratante. Quando acordei de dormitar, 50 minutos depois mais ou menos, estava incrivelmente bem, e voltei à pista com um ritmo bastante acelerado, fazendo voltas de 33 e 35 minutos (valores de cabeça), e sem sinais de desgaste muito evidentes, sem contar com os pulsos. Esses já nem pensava neles ao virar das doze horas, que já estavam completamente moídos e qualquer sobressalto no terreno representava no final dores excruciantes, ao ponto de tirar as mãos do guiador sempre que possível.

Nos primeiros raios de luz do dia, o número de corredores em pista era já bastante reduzido, mas o ritmo nem por isso estava assim tão calmo. A minha namorada indicou-me que me encontrava na 3ª posição, situação que desconhecia por completo, mas que o 4º já estava outra vez em pista. A luta cerrou-se a partir daí até ao final, com os dois a fazer tempos por volta bastante próximos, até que nas últimas voltas, o 4º lugar se inspirou e fez um ataque incrível, conseguindo fazer registos 4 minutos inferiores aos meus numa altura em que eu estava a quebrar. Às onze da manhã a nossa diferença era mínima, o que me obrigou a um esforço que eu desconhecia ser capaz, e consegui fazer duas voltas abaixo dos trinta minutos, com a última de todas a ser o melhor registo de toda a minha prova, cerca de 27 minutos. Um autêntico bafo de desespero inesperado, já que umas horas antes não me encontrava em ritmo de competição, e finalizava a prova com voltas 8 minutos abaixo dos melhores registos médios.

O cruzar do meta foi para mim bastante emotivo. Os últimos meses da minha vida foram bastante difíceis (os mais difíceis) e a decisão de estar presente naquela prova representou para mim um movimento de quase rebeldia. Por outro lado, sou estudante, e não tenho ordenado, pelo que para estar presente nesta prova, passei o mês inteiro de Janeiro a estudar para os exames e a trabalhar para conseguir juntar algum dinheiro para participar, enquanto os quilómetros pedalados no total não foram mais de 300 (true story). Só em Fevereiro consegui fazer a minha preparação com treinos de sensivelmente 60km três a quatro vezes por semana. Sabia que era manifestamente insuficiente para enfrentar uma prova deste tipo, mas também sabia que eu e a minha namorada tínhamos feito tudo o que havíamos conseguido para chegar ao dia 3 de Março e conseguir realizar a melhor prova possível. Sacar da cartola este 3º lugar, além de ter sido um fortúnio feliz, foi a minha, a nossa, a comemoração de todo o esforço conjunto num desafio que tinha muito para dar errado, e um empurrão para enfrentar os meses que não se cansam de estar a caminho. E ainda bem.

There’s solace a bit for submitting,
To the fitfully cryptically true
What’s happened has happened
What’s coming is already on its way
With a role for me to play

Fiona Apple, Red Red Red

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2 thoughts on “Portugal Open XCR, Abrantes III

  1. Obrigado Fred.
    Foi uma espécie de catarse. Não fui mesmo talhado para competição, mas entrei na prova com a cabeça no sítio. A convicção de que era aquilo que queria fez o resto. Mais do que satisfatório, foi inspirador.

    Percebi agora a demora nas actualizações do teu blog. Belas imagens, e já agora, parabéns pelos relatos. Já há algum tempo que és um inspiração.

    Outro abraço,
    e parece que em Maio vou aí a baixo pedalar.

O ciclista incrível preza a palavra alheia

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